Olá José,

Peço que aceite que o trate por José porque, como se costuma dizer, Senhor é o meu pai e andar a tratá-lo por Dr. ia tornar isto numa carta do Jovem Conservador de Direita.

Vou-lhe ser muito sincero. Ao contrário de muitos, não sei se o que o seu filho escreveu para o Observador foi influenciado por anos de educação católica em casa ou qualquer outro "entrave" familiar. Mas sei outras coisas.

Sei, por exemplo, que o Manuel de 17 anos (como você, carinhosamente, o trata nos seus tweets) conseguiu escrever para o Observador, não pela qualidade do conteúdo ou até por este ser revolucionário.
Vamos ser honestos, o que não falta por este país é malta de 17 anos que acha que sabe escrever e gostaria tanto como o Manuel de aparecer no Observador. Mas nenhuma dessa malta aparece. Foi o Manuel que apareceu.

E querer retirar desse feito o contexto em que ele acontece é, no mínimo, querer tapar os olhos "ao burro".

O Manuel escreveu para o Observador porque tem a família que tem. Ponto.

Agora, sobre o conteúdo do texto do Manuel. Não vou andar aqui a esmiuçar o que o rapaz defendeu porque, por essa internet fora, este trabalho já foi exaustivamente feito.

Vou, porém, esmiuçar a sua reacção, José. A sua e a de muita mais gente por essa internet fora.

Dizem que as reacções ao texto do Manuel têm sido verdadeiros actos de censura, de "lápis azul", como disse o José.

Mas vejamos, a carta do Manuel continua online, não lhe retiraram qualquer parte "menos aceitável" e não proibiram o país de a ler. Está ali, para todo o leitor que queira gastar o seu tempo com ela.

Ora, penso que o José tem idade suficiente para saber que não era assim que o "lápis azul" funcionava. Não me lembro do Zeca Afonso andar na clandestinidade por a PIDE não achar piada às suas músicas e, então, munir-se de ataques nas redes sociais. Mas posso estar enganado.

Se é precoce um rapaz de 17 anos ser tão atacado na internet por ter partilhado a sua visão do país? Tão precoce como seria daqui a uns tempos quando ele fizer 18. Tendo 17 anos, o Manuel sabe bem como funciona isto da internet. Quando damos o corpo à palmatória...

Por isso, caro José. Não podemos ter a direita a chamar comunistas aos cronistas de esquerda (e não estou a dizer que o José o faz), e depois bradar aos céus porque a esquerda achou ridículo o Manuel de 17 anos defender a sua liberdade mas questionar a dos outros.

Pronto, José. Era isto. Espero que o Manuel esteja bem e pronto para outra ronda de oferta do corpo à palmatória. Porque é este o ciclo de nós, os que publicamos as nossas opiniões. Embora eu o faço neste pequeno lugar e o Manuel no Observador.

Cumprimentos José, cumprimentos ao Manuel e beijinhos aos restantes.